Bala meia-volta- Cláudio Lins




Bala, volta a bala, volta o grito, volta a reação estúpida
Vidro estilhaçado e o pára-brisa volta agora a existir
Sai a bala da minha cabeça, volta o tiro, tire esse final daqui
Bala: volta à arma, tira o carma que te colocou a pólvora
Volta a bala ao berro do silêncio quando antes de partir
Volta aquele dedo, aquele medo do vermellho, abre esse sinal por vir
Tira o menino sem ter pra onde ir
Volta pro colo da mãe já nem aí
Volta pra bola, pro amor, pra escola
Pra tudo que se fez ausente
Volta pro ventre mas tira ele dali
Bala, volta a bala, volta tudo que inverteu toda essa lógica
Vida estilhaçada no estofado volta agora a existir
Tira a arma na minha cabeça, não se esqueça qu'eu vou te tirar daqui
Voto: volta à urna, tira a turma que te colocou em cólera
Volta a bala ao berro das crianças que ainda estão por vir
Bala meia-volta, volta e meia se aloja na cabeça, mas vai sair
Tira o menino sem ter pra onde ir
Volta pro colo da mãe já nem aí
Volta pra bola, pro amor, pra escola
Pra tudo que se faz ausente
Volta pra frente mas tira ele dali
Bala, volta a bala, volta o tiro, volta a arma, vota o grito, volta o vidro, volta a bala meia-volta.
Bala meia volta, volta e meia, se aloja no silêncio, na cabeça do menino, volta o tiro
Bala, volta à urna, volta o voto, volta a turma, volta o colo, volta a reação a bala meia-volta.
Bala, volta a bala, volta o tiro, volta tudo.
Que música!

Ana Jácomo

Coração humano é feito para o afeto, 
quer a gente consiga viver ou não esse chamado. 
Coração humano é feito as borboletas, 
imaginado para espalhar pólen de luz, alegria, bondade, 
amor, de incontáveis jeitos, nesse imenso jardim, com a vantagem preciosa de geralmente viver muito mais tempo do que elas. 
Coração humano, por essência, é criador de beleza. 
É rascunho de Deus pra gente passar a limpo. 
E quanta dor acontece, meu Deus, porque a gente não passa. 
Que me desculpem os apáticos: não tenho medo de sentir, eu sinto muito.

Ana Jácomo

Vim aqui me buscar porque, para onde quer que eu olhasse, eu não me encontrava. 
Porque sentia uma saudade tão grande que chegava a doer e, embora persistisse em acreditar que ela reclamava de outras ausências, a verdade é que o tempo inteirinho ela falava da minha falta de mim […] 
Vim aqui me buscar. 
Aqui, no meu coração.

É preciso- Celso Lima Velame

Sim, é preciso

encarar o oposto do sonho,

a vida realidade,

a vida desacreditada,

a vida não vivida;

ouvir o passarinho

que ainda vive

em nossos corações.

É preciso sim,

abrir o robô,

soltar o homem,

fazê-lo participar;

buscar no espesso artificial,

o momento puro da vida;

dizer da verdade jamais dita

sobre o amor tão renegado.

É preciso, sim,

andar descontraído pelas ruas,

desarmar o espírito e o corpo;

afinal, tantas... tantas vezes,

o inimigo nem sequer existe!..

Sim, é preciso

abrir janelas

nos olhos mecânicos

e enxergar a alma do mundo,

descobrir este mundo oculto,

este mundo gente,

onde, ao longo de calmas avenidas,

com aceitação,

mãos estranhas se apertam

numa muda comunhão de idéias.

É preciso sim,

Temperar com o amor acústico,

as relações distantes, impessoais,

desses tempos cibernéticos, virtuais,

Sim, é preciso,

deixar que o sol contido

ilumine o horizonte escuro.

É preciso, sim,

ver, como eu vi,

tudo aquilo que eu não via.